sábado, 20 de junho de 2009

Texto Tocante





Adorava os textos de Martha Medeiros, tinha todos os livros, com autógrafo e dedicatória, pois nos conhecemos e mantivemos contato por alguns anos. Com o passar do tempo, alguma coisa foi mudando: ou o jeito como ela escreve, ou o jeito como eu interpreto, não sei, mas os textos atuais não me tocam mais da mesma forma. Acho tudo meio sem graça.

Quando leio um texto antigo, de 1999 ou 2000, relembro porque a amava, porque as palavras dela ficavam incrustradas em mim por tantos anos. Textos como
O Mulherão, O Beijo, Quanto Vale Um Sim e O Senso da Raridade ficarão para sempre comigo, e os repasso a todas as pessoas de quem gosto, porque acho que causam um efeito positivo nas nossas vidas.






SENSO DA RARIDADE (Martha Medeiros, publicado no ano 2000)




"É no amor que mais testamos essa verdade: na iminência da separação"



Não faz 24 horas que li a última página do livro Longamente, de Erik Orsenna, e já estou com saudades. É um romance francês que me foi indicado por um amigo e que não resisto em indicar para você: você que gosta de histórias de amor pouco ortodoxas, você que preza um texto inventivo e extremamente bem escrito, você que reconhece a dificuldade de se lutar contra as conveniências, você que se adapta meio contra a vontade a um mundo que oferece opções restritas de comportamento, você que gosta tanto de ler de viver.


Foi neste livro que destaquei, entre tantos trechos definitivos, uma frase que estava aplicada ao amor, mas que se aplica, na verdade, a tudo: "A proximidade do fim dá o senso da raridade". No livro, o risco de um amor acabar deu a um dos amantes a súbita noção do quão raro era aquele sentimento e de como seria impossível desfazer-se da relação. É no amor que mais testamos essa verdade: na iminência da separação, nosso músculo cardíaco convoca as pressas todas as emoções dispersadas e recobra seus batimentos, enquanto manda avisos urgentes ao cérebro: não desista, não desista, não desista
.


Vale para o amor, vale para a vida. A proximidade do fim é algo que comove. Outro dia vi uma jovem apresentadora de televisão debulhar-se em lágrimas, ao vivo, por estar gravando o último programa pela emissora que trabalhava, já havia assinado contrato com outra. Nenhum arrependimento, nenhuma armação de marketing. Era o senso de raridade que se manifestando frente a câmera, a raridade de ter feito amigos, de ter obtido sucesso, de ter passado por algo verdadeiramente bom.

O senso da raridade sempre nos intercepta na proximidade de uma despedida. Costumamos compreender as coisas tarde demais. Passamos muito tempo ausentes de nós mesmos, anestesiados por um ritmo de vida que parece imutável, até que muda. Não é de estranhar que seja na vizinhança da morte que o senso de raridade nos arrebate: a raridade de poder caminhar sem amparar-se em ninguém, de poder enxergar o mar sem embaçamento da vista, de pronunciar a palavra futuro sem constrangimento.


É da raridade de estar vivo que trata o livro Longamente. Da duração eterna de grandes amores, da duração das amizades, da duração de nossas convicções e de nossas esperanças, de tudo o que é longo o suficiente para permitir construções e morada, longo o suficiente para ensinar que as advertências da razão sempre serão menos raras do que o impulso dos instintos.


*

Obs. Ilustrei o post com uma foto de O Beijo, de Camille Claudel porque, quando vi esta estátua e pude tocá-la, já tinha lido a crônica e havia lembrado do senso da raridade que aquela emoção me causou, e também pela fugacidade desse momento.
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3 comentários:

Fala Mãe! postou o comentário número:

Gostei muuito do seu post Fê! Eu continuo gostando da martha, mas no último livro que li o doidas e santas, confesso que achei algumas crônicas ótimas e outras bem sem graça, mas relevei, tb nao dá pra ser bom toda hora né?
Gostei muito desse texto do "senso da raridade", nunca tinha lido. Acho que a Martha é bem democratica, ela expressa o que a maioria das mulheres pensa, o que a faz ser querida, mas as vezes falta um certo risco, e acaba ficando meio banal...né? Muito legal vc compartilhar sua opinião Fer. Ixi, escrevi demais, boa noite, beijo querida!

Ninguém postou o comentário número:

Querida, eu também gostava dos textos da Marta e, há algum tempão, me surpreendo desgostando! Acho muito forçadas certas crônicas e tenho a real impressão que são encomendadas, não vertem da alma! Ela ficou muito comercial. Está escrevendo colunas para todos o tipo de jornal e revista. Então se mercenalizou totalmente! É pena...

Ju Ramalho postou o comentário número:

Faça o que for necessário para ser feliz. Mas não se esqueça que a felicidade é um sentimento simples, você pode encontrá-la e deixá-la ir embora por não perceber sua simplicidade.
" Marta Medeiros"

Essa frase reúne o que vivo agora. Marta é um pedaço de todas nós. Bjo

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