terça-feira, 14 de maio de 2013

Avós Sem Afeto - A Segunda Decepção


Este depoimento é verídico e foi enviado por uma amiga das letras, uma pessoa de quem eu gosto muito. Ela me pediu sigilo, por isso não há link do seu site nem do facebook. Quem quiser fazer contato com ela, deixe seus dados ou e-mail nos comentários, e ela decide se pode se revelar.


A Segunda Decepção

Um dia brincando com meus filhos de uma nova brincadeira, dessas que eu sempre inventava, perguntei de quem eles mais gostavam. Falaram papai, mamãe, falaram da professora, alguns amiguinhos, uns primos, uns tios/tias e só.

Depois perguntei de quem eles não gostavam. Sem ficar pensando responderam: "vovó X e vovô Y". Os dois responderam praticamente juntos e só isso. Fiquei pasma e pensativa. Perguntei o porquê. Não souberam dizer porque eram muito pequenos. Só disseram "porque sim".

Aos poucos, as imagens vieram à minha mente, de coisas que aconteceram, que aconteciam e parece que uma ficha, ou um arquivo inteiro caiu sobre mim.

Meus filhos não são os únicos netos. Tem mais um neto de uma irmã, que minha mãe praticamente o criou, e uma bem mais novinha,  de meu irmão. Então me lembrei de quando deixava meus filhos lá para brincarem, a reclamação era sempre a mesma, que eles não paravam quietos, que corriam, que gritavam, que choravam. Aliás, esse foi um dos motivos de não querer deixá-los lá para continuar trabalhando fora. Foi então que abri mão de carreira e de um bom salário só para eu mesma cuidar e educar meus filhos.

Quando acontecia esse comentário de meus pais sobre meus filhos, eu só dizia que eles eram crianças e só estavam sendo crianças. O tempo passou e a implicância continuava. Meus filhos sentiam isso e até hoje, já adolescentes, não sentem falta dos avós, meus pais.

Minha mãe sempre foi muito fria, acho que era infeliz, e descontava na felicidade dos outros, principalmente nos meus filhos.

E voltando mais um pouco, na minha infância, era exatamente assim. Vivia jogada pelos cantos, sem nenhum afeto, atenção ou carinho. Acho que Deus me fez curiosa e observadora por isso, para aprender como é a vida, observando os outros, porque de minha mãe não tive. Não me lembro de abraços, de beijos, de carinhos e nem mesmo de um sorriso direcionado a mim, quando era criança. Não me lembro de nada. 

Isso influenciou demais em minha vida agora, pois muitas coisas boas que me acontecem, não consigo digerir como sendo minhas. Se é um elogio, não fico empolgada e acabo achando que é só da boca pra fora, só pra me agradar, e não por meu merecimento.

Sempre fui uma boa filha, uma boa moça, com juízo suficiente pra distinguir o que é certo e errado e seguir sempre o bom caminho. Mas isso por mim e não por influência e educação de mãe. Se fosse levar em conta a educação e exemplo que tive, seria uma mulher amargurada, reclamona, ruim e desejando o mal pra todo mundo o tempo todo.

Mais uma vez Deus, na sua misericórdia, me amparou, e quando tive meus filhos, a primeira coisa que pensei foi que eles poderiam até sentir falta de algo, mas de amor, de carinho, de afeto, nunca!

Hoje, eu sendo uma jovem senhora e meus pais idosos, tudo está mudado, eles contam comigo, contam coisas pra mim, dependem de certa forma de mim.

Não tenho mágoa, nem rancor, porque isso não cabe em mim. E os outros irmãos são exatamente como eles nos criaram e que não sou: arrogantes, reclamões, pessoas ruins, infelizes, invejosos, enfim, são o retrato dos pais.

Isso me fez afastar da família, mas quando meus pais precisam de algo, é a mim que recorrem  e eu os ajudo como posso. Eles também me ajudam como podem. Hoje é uma troca que temos.
Mas dizer "eu te amo, mamãe", nunca disse e não diria. Eu respeito, cuido, mas amar, não!

Olha, dói muito a gente crescer sem saber o que é o afeto de uma mãe, mas dói muito mais em perceber que essa falta de amor se estendeu pros seus filhos. E assim a vida continua.

*





22 comentários:

Lúcia Soares postou o comentário número:

Certamente, Fernanda, uma história muito triste.
Posso até entendê-la,um pouco. Conheço uma pessoa assim, incapaz de dar amor, vive amargura, criou os filhos sem ternura nenhuma e agora age da mesma maneira com os netos.
Mesmo sem entender as razões desta pessoa que conheço, aceito o jeito dela ser, pois o maior mal faz a si mesma...
Que bom que a pessoa que lhe escreveu não guardou dentro de si mágoa, nem tristeza. O que passou, passou e ela consegue dar o que não teve: amor, carinho, atenção.
Um beijo nela.
Beijo!

Lauisa Nogueira postou o comentário número:

Querida um texto lindo e realista, muitas relações familiares se perdem em um estalar dos dedos..eu mesmo me perdi com minha mãe e até hoje lutamos para nos reencontrar..imagino o quão difícil foi sua vida, mas que bom que não passaste aos teu filhos a amargura da tua vida...lembro que quando criança não gostava da minha avó materna...toda vez que ela ia nos visitar eu e minha irmã nos escondíamos na casa da vizinha em baixo da máquina de costura...beijus e obrigada pro compartilhar sua história, pois nos leva a reflexões e isso gera crescimento..beijusss

Nina postou o comentário número:

Oi Fer,
Acho que sempre deve ficar faltando algo...
Beijos

Juliana Silva postou o comentário número:

É tão reconfortante saber que mais alguém passa por isso, que não sou a estranha nesse mundo, pois é assim que me sinto com relação a esse sentimento que tenho dentro de mim a falta de amor de pai e mãe durante minha infância, minha mãe hoje eu consigo até compreender melhor pois se ver aos 26/27 anos separada do marido, traída, enganada por anos com dois filhos pra criar e um ex que não foi homem o suficiente pra sustentar os filhos e ainda a impediu de trabalhar fora colocando na cabeça do meu irmão que se ela saísse de casa não voltaria mais,isso pode ter tornado-a mais seca em seus relacionamentos. Mas ele que nos abandonou e ate hj não me demonstra amor nenhum, não consigo entender, ate tento ser mais compreensiva, relevar algumas atitudes, mas infelizmente não existe um relacionamento pai e filha entre nós. Hj tenho uma sobrinha que a coitada da minha mãe nem sabe o que é ser avó e nem eu o que é ser tia, pois meu irmão e minha cunhada se afastaram de minha mãe, não sabemos o porque e se enfiaram na casa de meu pai e sua outra família. Eu não consigo entender como isso tudo acontece uma família não deveria nunca perder esses laços as pessoas deveriam ter a consciência que é o bem mais valoroso que temos, assim como vc minha querida colega eu já tive que passar por cima dessa falta de amor, e cuidar dela por mais de 1 ano qdo sofreu um acidente de trabalho,mesmo sem ter esse sentimento de que era minha mãe o maior amor da minha vida, meu bem mais precioso, o que eu sabia naquele momento era que ela é minha mãe se eu não cuidar ela poderia perder a perna, quem sabe a té morrer, meu instinto foi cuidar e pronto e lutar pra vida dela ser a melhor possível. Eu também espero dar a minha mãe muito amor e poder ampara-la sempre e qdo meus filhos chegarem espero que ela possa sentir-se muito avó e dar muito amor a eles. Tento fazer brotar dentro de mim esse amor que não foi cultivado qdo deveria, mais não é a mesma coisa, um buraco ficou ali.

Jô Turquezza postou o comentário número:

Que triste! Já vi casos assim.
E eu mesmo longe fisicamente de minha netinha, nos amamos e demos amor uma para outra. Apesar dela ter só 2 aninhos, ela conversa comigo pelo Skype e sinto o carinho entre nós duas.
Amor afeto e carinho não podem faltar nunca!
Beijos.

Lulu postou o comentário número:

Olha é muito difícil conviver com alguém que não sabe doar amor. Somos humanos, precisamos de afeto, de carinho e criança sabe e sente quem realmente se importa com ela.
Ainda bem que o mundo dá voltas e a vida nos mostra pessoas que realmente se importam com a gente.
Big Beijos

Luciana. postou o comentário número:

Ai que triste! Às vezes é difícil de entender o porque, hoje com o pouco de experiência que tenho, percebo que as pessoas repetem como foram criadas, ensinadas... somos um reflexo... uma bola de neve... só quando a pessoa quebra e vence essa cadeia que se forma é que pode transformar sua vida, mas é preciso força, percepção e muita sensibilidade. Fico feliz por ela ter quebrado esse paradigma, e apesar dos traumas que ficaram, conseguiu passar para os filhos seu amor, seu carinho, sua dedicação.
Que Deus continue te dando sabedoria, discernimento e essa sensibilidade baseada no amor.
Bjos, Lú.

Alexsandra Helga postou o comentário número:

Emocionante e triste esse post!!!
É a vida continua...Graças a Deus minha filha tem uma ótima avó, que esta sempre disposta a brincar, fazer a sopinha, enfim, ser avó.
Uma linda semana...
http://meusamoresvariedades.blogspot.com.br/

Adelaide Araçai postou o comentário número:

É engraçado mas me identifiquei não com a avó, minha filha graças a Deus tem duas avós maravilhosas. Tudo o que minha mãe não foi de carinhosa comigo ela foi com minha filha. Estraga por exagerar em carinho, como se quisesse compensar.

E eu assim como a autora, relevo o passado. E diferente dela, hoje posso agradecer por não ter perpetuado a falta que tive. Hoje eu dou carinho a minha filha que também recebe da avó tudo o que esta não conseguiu dar aos filhos.

Muita Luz e Paz
Abraços

Ana Lígia postou o comentário número:

Muito triste.
Eu não conseguiria imaginar uma situação assim se não tivesse lido a história.
Sabe Fernanda, na própria família existe casos de preferência de netos, meninos tratados diferentes de meninas, acho isso um horror e sou totalmente contra, não concordo.
E com educação já deixei bem claro isso!
Tenho dois filhos e posso dizer que meus pais são excelentes avós, tanto que eles amam ir pra casa deles.
Um beijo pra vc e outro especial para a amiga que compartilhou a história, nos faz refletir!

Dani&Flávio postou o comentário número:

lindo o texto, e fala um pouco do que vivi, falta de amor de meus pais e avós. Que hoje faço de tudo para não passar esse sentimento para minha filha e família.

Eu que fiz... ou quase isso postou o comentário número:

Nossa que triste, mas surpreendente tb, pois ela não tem rancos, mágoa nada, olha eu me considero uma pessoa que não guarda rancor, mas acho que neste caso eu guardaria sim...minha mãe foi e é uma mãe carinhosa, muito cuidadosa com as coisas de casa e tudo mais, mas é muito brava, apanhei diversas vezes por bobagem eu e minha irmãs tb e até hoje ela acha que fez a coisa certa! eu amo minha mãe, mas não gosto quando ela diz mesmo agora que nós somos adultas, mães que bateu o tanto que agente merecia ou menos, acho uma ignorância da parte dela ele insiste que somos do bem por conta disso aff!

bjs

Gélia

Renata postou o comentário número:

Oi Fer !

Estória triste, mas acho que não é tão incomum, é que na maioria das vezes as pessoas não falam.
Aos poucos pretendo ler todas as estórias.

Beijos, Renata
palpitandoemtudo

Decor'ação postou o comentário número:

Puxa Fê que triste, sei um pouco como é a reclamação em relação aos meus filhos e minha mãe. Eu sempre fui afetuosa, mas minha mãe sempre foi mais trabalhadeira, lutadora do que afetuosa. Minha filhas também gostam mais da avó paterna, pois esta se jogava no chão pra brincar com elas. Já na casa da minha mãe... minhas filhas iam no banheiro, eu ia atrás pra limpar algo. Se entravam e sujavam, bagunçavam, deixavam brinquedos pelo chão, lá ia eu. Pior a minha mãe tem preferência por uma e implicância com a outra. É triste né?
Bjos

Beth Salvia postou o comentário número:

Noossanunca pensei nisso, nunca imaginei que avós não tratassem seus netinhos com mais mimos do que deram aos proprios filhos, me deu uma dor na alma tão grande, mas depois fiquei alegre ao ler que ela, a mãe desenvoleu -se como uma pessoa carinhosa e amável, que bom q aprendeu com o erro dos outros, parabéns a ela

Eli Martins postou o comentário número:

Realmente uma história muito triste, e não incomum.
Já ouvi várias pessoas dizendo que os pais eram frios com eles mas quando tiveram os netos era só amor, já que não haviam feito pelos filhos.
Que bom que o coração da amiga não se fechou, que ela conseguiu não guardar rancor por isso.
E com certeza ela é uma super maezona.
Bj

Ana Seciliano postou o comentário número:

Me identifiquei plenamente.
A minha irmã sempre foi a queridinha da vovó e eu tive que amadurecer muito rápido para ajudar minha mãe.
Minha mãe também não tem muitas demonstrações de amor.
Passei por momentos difíceis nos últimos anos e quem me apoiou, quem se preocupou comigo foi minha sogra.
Hoje, minha avó tenta se aproximar de mim mas não sinto amor por ela (até gostaria de sentir mas não dá). Tenho o respeito, uma simpatia mas não passa disso.
Foram feridas de infância que não cicatrizaram.
Tenho sorte e agradeço a Deus por ter conseguido formar uma família amorosa e feliz.

Lola postou o comentário número:

Que triste Fer...e que verdadeiro! Verdadeiro porque vejo, em pessoas mais velhas e mais jovens, todo esse desafeto por entes familiares.
Eu tive muito amor de vó...e de vô. Eles realmente me criaram! E sinto uma profunda compaixão por quem não teve a mesma oportunidade que eu.
Bjs

Neli Rodrigues postou o comentário número:

É impressionante ver como TODA família tem problemas. E a gente acha que é só com a gente, né?
Tb nunca senti um amor de mãe e filha, mas mudei isto aqui em casa. Beijos, abraços e "eu te amo" são uma constate aqui na minha casa, não queria que se repetisse o que vivi na infância.
"Anônima", mto corajoso o seu depoimento e mais corajoso vc admitir que passou por tudo isto.
Sei que não alivia em nada, mas saiba que vc não está só.
Bjs

Patricia postou o comentário número:

lendo seu post vi um pouco da realidade que me rodeia..........minha mãe morreu eu era bem pequena e então fui criada por minha avó.........ela apesar de ser uma pessoa bem ativa naquela época era um ser arrogante e infeliz e eu sempre sentia toda a "raiva" da obrigação que caira sobre ela com a morte de minha mãe. Infelizmente não consigo na atualidade ter esse afeto amoroso a ela. E o pior que hj, mãe com lindas mocinhas vejo o desamor de minha sogra para com minhas filhas.........como diz no texto e relato dessa sua amiga.....ela só reclama e critica minhas filhas, sempre tudo nelas é errado e acaba magoando profundamente as minhas pequenas. E com isso acabo dia a dia me afastando dela e da família do marido porque vira e mexe eu dou uma alfinetadinha nas atitudes dela em relação as minhas pequenas e aí vc já viu né ..............A GUERRA TÁ FEITA............enfim não tive sorte com avós e as minhas filhas também não sabem o que é chamego de vó...fazer o que né?? tentar qdo vfor minha vez ser uma boa vó e mudar essa realidade em minha família..........bj

Aline Michelle postou o comentário número:

Que evoluído da sua parte. Vivo exatamente o descrito, mas me magoo muito e não consigo ainda ter essa sabedoria sua. Como consegue?

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