sábado, 28 de fevereiro de 2015

Isto é normal? #ASemana 9


O que é normal para você?  Questione-se de tempo sem tempos. O que passa na sua cabeça?


Veja este trecho do livro que citei no post anterior (Qual a tua obra?), em que o autor Mario Sergio Cortella conta a história de dois índios xavantes em visita a São Paulo e a estranheza que sentiram ao ver nossa vida "normal". O capítulo trata de ética.


"(...) No Mercado Municipal é comida para todo lado. Eles (os xavantes) deram dois passos e ficaram pasmos. Pilhas de alface, de tomates, de cenoura, de laranja. Ficaram com o olhar talvez como o nosso olhar ficaria se entrássemos no cofre de um banco. Em certo momento, um deles viu uma coisa que nenhum e nehuma de nós veria. Ele cutucou e perguntou: "O que ele está fazendo?" E apontou no chão um menino negro, pobre (a gente sabia que era pobre por causa da roupa, ele não saberia) pegando alface pisada, tomate estragado, batata já moída e colocando num saquinho. 

Nenhum e nenhuma de nós veria aquilo, pois para nós era normal. Normal? Cuidado com o conceito de normal. 

Nós falamos: "Ué, ele está pegando comida". O cacique não disse mais nada. Ele continuou andando conosco, mas não prestou atenção em mais nada. Depois de uns 15 minutos, ele falou:

- Eu não entendi. Por que ele está pegando essa comida estragada aqui no chão, se tem essa pilha de comida boa?

- É que para pegar comida dessa pilha aqui precisa de dinheiro.

- E ele não tem dinheiro?

- Não tem.

- Por que não tem dinheiro? - indagava o cacique.

No que ele está cutucando? Na nossa base ética, no nosso valor de vida. A gente acha que criança com fome, mesmo diante de uma pilha de comida boa, pode comer comida estragada. Porque a vida é assim. É normal."



*

Para contrabalançar a visão dura que adquirimos no o cotidiano, temos a Arte, que nos atiça a sensibilidade, nos suaviza.


Cabeça, 1948, pintura de Milton Dacosta.



A pintura Cabeça, de Milton Dacosta, nitidamente influenciada pela arte do pintor espanhol Pablo Picasso, "quando representa diferentes visões do rosto da figura, dividindo-o em duas faces, com grandes olhos negros que nos miram de frente." como se a moça fosse feita de uma dobradura de papel". 



Coleção da Folha, Grandes Pintores Brasileros.



Esmalte vermelho alaranjado da marca Panvel, cor Topázio, para combinar com a pintura de Dacosta.




Você está se alimentando com boas leituras? 
Está dando se dando o prazer da contemplação? 
Está trazendo arte para a sua vida? 
Está questionando a normalidade do cotidiano? 
Está se dando o MELHOR, dentro de suas possibilidades?



Para ver mais fotos desta semana, 

clique em @fernandareali.




8 comentários:

Geh postou o comentário número:

A gente se acostuma com certos acontecimentos que nem se abalamos quando vemos ou ouvimos falar sobre. Mas ando alimentando muito bem minha alma, minha mente, tentando ser mais empática e compartilhar coisas boas.

bjus

Alexsandra Helga postou o comentário número:

Oi Fe!!!
É necessário sair da nossa zona de conforto, mas, estamos tão "confortáveis" que fica cada vez mais difícil...
Uma linda semana...

Clara Miranda postou o comentário número:

Questiono o meu conceito de normal o tempo todo. E às vezes tenho que me deparar com minha própria crueldade.
:*

melissa postou o comentário número:

Precisamos parar sempre e refletir....assim dá tempo de mudarmos!!
Bjs

Chris Ferreira postou o comentário número:

OI Fernanda, eu tive a oportunidade de assitir a várias palestras do Mario Sergio Cortela na Intelig, Ele é sensacional. Vou atrás desse livro.
Adorei o esmalte e a pintura. Estou sentindo falta de ir a alguma exposição. Ver arte faz um bem incrível. Admirar o belo acalma a alma.
beijos
Chris
A Semana 55

Adriana Balreira postou o comentário número:

Bem forte esse conceito do normal. Uma pena que estejamos tão acostumados com essas cenas cotidianas e não nos assombramos mais. Nem notamos! Absurdo isso. Não quero me acostumar com essa normalidade! Adorei o texto!
E amei a cor que vc pintou as unhas!
Beijos
Adriana

Rosane Castilhos postou o comentário número:

Oi Fer, adorei sua postagem. Sempre me pergunto: qual minha obra? o que estou fazendo para movimentar o mundo? dou o meu melhor? o que posso mudar? E tantas outras indagações que me acompanham. Gosto muito do Cortela, seus escritos, suas falas são de fato muito cabíveis no nosso tempo. A arte é a "fuga", ou melhor: o encontro com o belo, com o feliz, com nós mesmos, através da arte movimentamos nosso lado emocional, as vezes tão endurecido e estático. Lindo esmalte, lindas unhas, lindo post!!

Renata Neris postou o comentário número:

Sempre me faço essa pergunta. Ela me afasta da rotina, de possíveis pré-conceitos. Aprendi na faculdade que o que é óbvio pra você pode não ser pra mim. É assim também com o dito "normal".

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